I Concurso Literário Benfazeja

O lado obscuro




A televisão está ligada. Olho sem realmente ver. Tudo parece desfocado, sem sentido, sem vida…

O som, ao contrário, adentra perfeitamente meus tímpanos, corroendo o que ainda há de racional em mim. Motivadores emocionais dizem que preciso tomar o controle da minha vida; pregadores em êxtase afirmam que os males que sofro são motivados por uma vida de excessos e falta de religião no coração; produtos e serviços são oferecidos como um instrumento para ter uma vida completa e feliz…

Raiva.

Raiva e repúdio.

Raiva, repúdio e mais um monte de sentimentos controversos atravessam meus pensamentos agora, e, em vez da vida feliz e redentora oferecida, só há um caminho…

Jogo água no rosto, tentando pensar em como agir, quando aquelas vozes que sempre me atormentam retornam com intensidade.

…Sua mãe não te queria, por isso se matou…

…Seu pai desapareceu para não ter de olhar na tua cara…

Nunca me livrarei delas, e elas só estarão satisfeitas quando me levarem ao destino inevitável que me está reservado. No espelho, observo uma versão fragmentada de mim. O fim é iminente.

Já tenho um copo com água em uma mão e, na outra, o frasco inteiro com comprimidos para dormir, quando a campainha toca. Hesito, mas o toque é insistente. Devo apenas seguir meu plano. As vozes estão insuportáveis, cada vez mais altas agora. Tenho de acabar logo com isso, mas as batidas à porta, inúmeras, me desconcentram. Decido que preciso saber quem é. Um zumbido alto e estridente, seguido de uma forte vertigem, substitui o falatório em minha cabeça e quase me faz cair. Mesmo assim prossigo, tentando me manter em pé, em direção ao olho mágico.

Tudo gira, e o corredor está escuro, mas consigo ver uma mulher e uma menina, ambas postadas à porta. Impossível identificar-lhes, mas, estranhamente, me parecem familiar. A vertigem me dá um tranco e quase caio para trás. Me recosto na parede, batendo o tronco com força. Quando me sinto com um pouco de domínio sobre meu corpo, volto a olhar pelo olho mágico. Agora, há uma senhora segurando uma vela na mão. A luz amarela e difusa ressalta alguns aspectos e esconde outros do rosto daquela mulher, mas, assim como as figuras anteriores, ela me lembra alguém…

Finalmente me canso de todo o esforço e deixo meu corpo desabar. Fico deitada no chão não sei por quanto tempo, até que o zumbido e a vertigem passem por completo. Quando levanto, ainda receosa, tento me aproximar da porta, mas algo me chama a atenção. O toque do telefone celular. Me encaminho lentamente até ele, e uma enxurrada de vozes retornam com intensidade. Me descontrolo ao ver quem está fazendo a ligação. No visor:

Mãe – chamando.

Nunca a conheci, nunca poderia ter seu número registrado em meus contatos, ela nunca me quis…

Começo a arrebentar tudo que encontro pela frente na sala, e as vozes dão um tempo. Ou, ao menos, estou tão furiosa que até as esqueci. De repente, uma voz chama por mim. Uma voz que traz recordações. Uma voz que não vem de dentro da minha cabeça. Uma voz que me chama por um apelido de infância, que só ela sabia. Uma voz que vem… do quarto. A voz de…

Pai?

Grito e corro para o quarto, incrédula, tentando acreditar que aquele homem que um dia desaparecera, me deixando sozinha no início da adolescência, estivesse ali, como se nunca houvesse me abandonado. Vejo uma silhueta mas não consigo acender a luz. As vozes retornam extremamente altas, permeadas pelo zumbido e acompanhada novamente da vertigem…

Acordo assustada, com um grito, e sento. Estou na minha cama. A televisão, à frente, ligada, sem som. Olho para a mesinha de cabeceira e o visor do celular está aceso. Pego-o rapidamente e vejo o que está escrito: 6 chamadas não atendidas. Antes de conferir quem me ligou, sinto que há algo entre minha coxa e o colchão – é o frasco com comprimidos para dormir…

Me deito novamente, fechando os olhos com força. Por alguns instantes, silêncio total. De súbito, me fazendo gelar a espinha, ouço meu nome. Em seguida, batidas à porta.

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Texto integrante do meu e-book Forjando Mundos, disponível gratuitamente.



Rodrigo Zafra Toffolo
Rodrigo Zafra Toffolo nasceu em Santos (SP) em 1984. Formado em jornalismo e pós-graduando em Gestão Cultural, é escritor e roteirista de curtas-metragens.
Desde 2009 vem publicando contos em antologias literárias por editoras como a Andross e a Geração Editorial, e por concursos literários nos quais foi selecionado, como o 2º Concurso Internacional de Contos Vicente Cardoso e o 3º TOC 140, da 8ª Festa Literária Internacional de Pernambuco, dentre outros.
Autor dos livros Um dia na vida (contos), Forjando Mundos (contos e poesias) e Condenados: o crime é apenas uma parte do quebra-cabeça (novela). Colaborador fixo no site SAMIZDAT.


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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
THIRTEEN, por Steve Pigott

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